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Graduada em Letras pela Universidade Braz Cubas (1979), Especialista pela Universidade de Mogi das Cruzes, Mestre e Doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1997). Atualmente é professora adjunta da Universidade de Mogi das Cruzes e da Universidade Braz Cubas. Tem experiência na área de Letras, Semiótica, Teoria da Comunicação e Filosofia, atuando principalmente nos seguintes temas: Semiótica e Publicidade, Teorias da Comunicação, Filosofia e Filosofia da Direito. Atualmente é secretária Geral da Sociedade Brasileira dos Professores de Lingüística e Membro da Comissão de Avaliadores do MEC- INEP. É autora de livros didáticos pela àtica e Scipione (Abril Educação), avaliados entre os livros do PNLD 2008. É Certified Professional Coach, pela International Coach Academy e membro da International Coach Federation. Proprietária da Quanta Coaching: consultoria em coaching nas áreas de educação, cultura e liderança.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

NATUREZA, MULTICULTRALISMO E CIBERESPAÇO: CONFRONTOS E CONTASTES NA EDUCAÇÃO

1. Introdução

Este percurso levanta algumas questões relacionadas a este título. O mosaico criado no panorama global pelo trânsito, cada vez mais intenso e veloz de bens simbólicos e de pessoas, pelos avanços das tecnologias físicas, da logística e transporte e, finalmente, pelas telecomunicações no faz conviver com paradoxos gritantes.

Por um lado temos a falta de consciência da preservação do planeta como um organismo vivo e a presente ameaça de testes nucleares, a solidariedade com o próximo e com a iminente catástrofe anunciada pelo aquecimento global, por outro, temos a depredação, por interesses econômicos de biomas ricos em diversidade como a Floresta Amazônica, por exemplo. Convivemos, ainda, com a existência de uma rede de telecomunicações servida por fibras óticas de diâmetro infinitesimal que passam pelo fundo de uma agulha, mas que têm a capacidade de enviar dez trilhões de bits de informação por segundo – o equivalente a 1900 CDs ou 150 milhões de chamadas telefônicas por segundo – que contrastam com inúmeras comunidades que ainda não foram servidas pela eletricidade e outras, há, ainda, que não se alfabetizaram. Assistimos a uma falta de esforço no fortalecimento dos sistemas educacionais do mundo e, acredito que a Educação é uma das trilhas que tornaria o homem apto a substituir as diferenças pela convivência multicultural, pela tolerância, pela ajuda mútua, pelo respeito ao meio ambiente, por uma humanidade que inclua tudo isso em si mesma.

  1. O percurso do Ocidente

Afirma Sousa Santos (2002: )

“As últimas décadas, com o aproximar do fim do segundo milénio, tem sido um tempo fértil para a emergência de fenômenos milenaristas ou apocalípticos, um pouco por toda parte, mas sobretudo nos Estados Unidos da América, onde o milenarismo – a América como nova Jerusalém – faz parte do mito americano.”

o que nos remete, como o próprio autor continua a lembrança de uma sucessão de fatos como guerras, genocídios, AIDS, as transformações climáticas, as catástrofes nucleares, a desintegração da família, o fundamentalismo e o surgimento de personalidades políticas que encarnam uma visão apocalíptica e de artistas engajados que lutam por outros ideais.

O Oriente, o selvagem e a natureza, para o autor, foram descobertas do imperialismo ocidental, essas descobertas levaram a uma apropriação do descoberto, a ter poder sobre ele, e essa sombra perdura até os nossos dias.

O Oriente, seu primeiro espelho, foi descoberto no início do segundo milênio com as cruzadas, cujo objetivo foi retomar Jerusalém para os cristãos, mas o que houve foi um encontro com o mosaico que denotava uma Idade do Ouro, que contrastava com a incipiência da civilização ocidental rudimentar, calcada no cristianismo e na idéia de mortificação do corpo para salvar a alma. O Ocidente não incorporou o Oriente à sua convivência mas sim rechaçou sua cultura ao deparar-se com a religião islâmica e esgotou suas reservas de riquezas.

A descoberta do selvagem, na metade do segundo milênio, trouxe o lugar da inferioridade. Tanto o índio, como o escravo trazido à força, depois, não eram considerados humanos, não davam valor aos metais preciosos que o Oriente dava, nem mesmo construíram impérios com exemplos arquitetônicos deslimbrantes como as Muralhas da China e o Taj Mahal, embora as civilizações Inca e Maia tenham deixado um tesouro material e cultural incalculável - o primeiro foi dilapidado e segundo sufocado.

A violência civilizadora do Ocidente trouxe a ambigüidade ente o paradigma missionário e o da exploração. O primeiro conseguiu preservar poucas coisas e poucas pessoas, os que restaram ou foram salvos pelos missionários ou refugiaram-se em lugares de difícil acesso, conseguindo resistir. Com os negros não foi diferente, alguns foram convertidos, outros burlaram a religião e criaram o sincretismo religioso, outros se libertaram e foram viver nas comunidades quilombolas, outros se mantiveram no cativeiro, estes últimos, por não terem sido indenizados pelo Estado, geraram um bolsão de pobreza, miséria e fome e assim como o Oriente, não foram incorporados ao Ocidente.

A Natureza, a terceira descoberta do milênio é o lugar da exterioridade. O distanciamento do homem ocidental da natureza deu-se pelo equívoco do conhecimento sobre ela, pelo tardio desenvolvimento científico que constatou que muitos recursos não eram renováveis e outros levariam anos para se renovar.

A Rio-92 foi o primeiro alerta de que a natureza precisava ser preservada, depois disso, iniciou-se uma jornada de discussões que levariam o homem a acreditar naquilo que era evidente: ele é parte constituinte da natureza, não algo além dela.

Sousa Santos conclui seu pensamento chamando essas descobertas de imperiais, mas gostaria de chamar a atenção para uma quarta, que nasceu concomitantemente à descoberta da natureza e nasceu justamente no centro do império: o ciberespaço. Seu alvorecer no final do século XX e seu estabelecimento no começo do terceiro milênio também fez emergir o poder e o saber.

Como as outras descobertas, o ciberespaço é uma resultante da economia. Fruto da ciência e da tecnologia da civilização ocidental, é ele que consagra construções faraônicas de bilhões de bites, que se colocados em CDs criariam monumentos maiores que aqueles já mencionados, ou ainda maiores que as Pirâmides do Egito e a Esfinge de Gizé, assim como a natureza é externo ao homem, por ser um universo de seres meio homem, meio máquinas, meio textos, meio cenários que ele domina e escraviza, pode ser algo interno a ele como o Oriente e o Selvagem.

Da mesma forma que Sousa Santos (2002; 35:36) questiona:

“É possível substituir o Oriente pela convivência multicultural? É possível substituir o selvagem pela igualdade na diferença e na autodeterminação? É possível substituir a natureza por uma humanidade que a inclua?”

indo mais adiante, podemos perguntar: é possível substituir um ciberespaço por uma humanidade que o inclua, substituí-lo pela igualdade na diferença e também substituí-lo pela convivência multicultural?

3. “Educar na era planetária”

No ensaio homônimo ao subtítulo deste fragmento, Morin afirma que “... é preciso compreender a vida como conseqüência da história da Terra e a humanidade como conseqüência da história da vida na terra.” (2003:63). Neste sentido, o autor toma o termo ‘planetarização’ que significa a inserção simbiótica da humanidade no planeta, embora ainda estejamos muito longe disso, é preciso vislumbrá-la, e, uma das formas de fazer isso é através das lentes de uma Educação transdisciplinar, a fim de eliminar o descompasso existente entre a aplicação das tecnologias quando se trata de interesses econômicos e quando o tema é educação.

Paradoxos como as vozes que emergem de reuniões do G8, cujas políticas são da manutenção de seu poderio econômico, e outras que ecoam no Fórum Mundial, que expressam sentimentos contrários à economia globalizante como uma ameaça às identidades e à democracia.

O pensamento complexo, a planetarização no dizer de Morin, é a idéia do mundo como “pátria comum” (2003:87). Embora estejamos, na nossa realidade física, distantes disso, o ciberespaço já começou com alguns adeptos desta idéia que vem se fortalecendo ultimamente. Se por um lado ainda não assistimos a substituição da natureza pela humanidade, os habitantes do ciberespaço – talvez não tenham se dado conta disso – estão em processo de; pois muitos compartilham da idéia de que o ciberespaço deve ser aberto a tudo e a todos.

Termos como inteligência coletiva, redes sociais, blogosferas são incorporadores de conceitos de convivência democrática entre indivíduos planetários. A noção democrática implícita nos softwares livres, na Wikipédia, no Copyleft, no compartilhamento de arquivos – filmes, documentos, entre outros – é comum entre os usuários da Internet.

A idéia de um ciberespaço com informações acessíveis a todos é bem aceita, da mesma forma que tem sido bastante efetiva a denúncia de abusos em seu interior.

Talvez por isso, educar na era planetária seria tomar como exemplo a simbiose que se esboça no ciberespaço.

4. Ciberespaço e Educação: alguns apontamentos

Para Pais (2004:01):

“O ser humano é um animal cultural, social e histórico. Dotado de inteligência e sensibilidade, é, a um tempo racional e afetivo. Exerce permanentemente uma atividade cognitiva. Para a compreensão das coisas que o cercam e para a sua atividade, utiliza como instrumentos de intermediação entre ele mesmo e os outros, entre ele mesmo, os outros e o mundo envolvente, sistemas simbólicos, ou seja, procesos semióticos verbais – as línguas naturais –não verbais – pintura, escultura, arquitetura, música, dança, fotografia etc – e sincréticos – teatro, cinema, televisão etc.

Através desses processos semióticos o ser humano constrói, conhece e interpreta as coisas do mundo são transformadas em recortes culturais” (gn)

Tomemos como ponto de partida que o ciberespaço é um processo semiótico sincrético, tal como o cinema e a televisão, pois compreende linguagens digitais, informações, seres humanos, seres meio-máquinas, meio-textos, meio-atores, meio-cenários. Universos paralelos onde avatares escondem imperfeições humanas que vivem aventuras impossíveis para seres humanos e espaço depositário de inúmeras vozes que alimentam o projeto econômico da globalização, mobiliza grandes fortunas com a venda pela Internet; outras vozes que gritam pela liberdade de expressão e outras, ainda, ecoam a violência, o terrorismo, a pedofilia e assim por diante. Um lócus polifônico onde a educação tem dado mostras de que pode tê-lo como aliado.

Numa busca ao youtube – site de compartilhamento de filmes – aparecem 56.400 resultados para a palavra aula, no momento em que este texto é escrito. Aulas diferenciadas como de inglês, culinária, softwares etc. Numa busca para trabalhos escolares, os números apontam: 3570 trabalhos de Artes, 3160 de Inglês, 2790 de História; 2100 de Português; 1060 de Filosofia, os números vão decrescendo para algumas áreas do conhecimento, mas até Matemática conta com 288 trabalhos postados no site. A soma da busca, neste ato, abrangendo mais algumas áreas do conhecimento chegou a 15.000 postagens de vídeo de trabalhos escolares da Educação básica e da superior. Segundo a Wikipédia cerca de 20 mil novos vídeos são compartilhados por ano no youtube e trinta milhões de vídeos são vistos diariamente.

Outra plataforma como a Google vídeo apresenta 167.000 vídeos com a palavra Education no título, já com a palavra Educação, aparecem 16.000.

Alguns números no ciberespaço são grandes, segundo Brenman (2006) havia 106 milhões de pessoas registradas na rede social MySpace até setembro de 2006, se ele fosse um país, seria o décimo primeiro maior país do mundo – entre o Japão e o México.

Ainda, segundo o autor, são feitas, em média, 2,7 milhões de buscas no Google a cada mês. Estima-se, que em 2006, 40 exabytes (4.0 x 10 19) de informações novas foram geradas, isso representa mais do que foi gerado nos últimos cinco mil anos da existência humana, enquanto isso, o acúmulo técnico de informação dobra a cada dois anos, isso significa que quando alguém chegar no seu terceiro ano de faculdade, tudo o que aprendeu no primeiro ano já estará obsoleto.

Estima-se ainda, que a informação gerada pela humanidade dobrará a cada 72 horas a partir de 2010 e para Bernman, isto pode representar uma utilização maior do papel eletrônico em substituição ao papel real, assim como, o aumento das vendas de laptop: 45 milhões foram vendidos em 2005 e o conhecido projeto do laptop de cem dólares deve atingir de 50 a 100 milhões de crianças por ano nos países subdesenvolvidos.

Segundo o IBOPE, o Brasil tem mais de 41 milhões de pessoas que acessam a Internet de sua casa, isso representa mais do que a população de argentinos no mundo.

A rede social ORKUT, só no Brasil tem mais de 1000 comunidades que contém a palavra educação, numa delas, intitulada: O Brasil precisa é de Educação, conta com 61.114 membros e os fóruns são bem freqüentados e ricos em conteúdo, a exemplo de um participante que apresenta o “bookcrossing”, um programa mundial de incentivo à leitura alocado no site: www.livr.us, onde você cadastra um bom livro, juntamente com seus comentários e pega um código de identificação correspondente ao livro, em seguida ‘perde-se’ o livro em algum lugar público e aguarda-se que quem o encontrou entre na Internet e apresente o paradeiro dele. Assim, se pode acompanhar a travessia do livro pela rede.

Estes exemplos demonstram apenas uma pequena utilização do ciberespaço na Educação, alguns números apresentados, servem apenas para nortear, pois esses números variam bastante, aumentando a cada dia.

Esses recortes feitos pretendem demonstrar que os processos semióticos do/no ciberespaço crescem em progressão geométrica e mesmo que haja resistências ele fatalmente atingirá a Educação, a sala de aula e o professor, pois caminhamos para o pensamento complexo e para a planetarização.

As mesmas discussões que atualmente se faz sobre diversidade cultural e inclusão na realidade mesma em que o ser humano vive, deve ser iniciada agora com relação ao ciberespaço e a pós-humanidade que ele configura.

5. Considerações finais

O que se pode considerar aqui é apenas um amontoado de questões.

Com todo o conhecimento que a humanidade tem de si própria hoje, ela ainda não tomou consciência da urgência da manutenção da biodiversidade do planeta, da preservação da natureza e da diversidade cultural que pulsa na superfície da Terra defrontando-se com outra realidade, tão multifacetada ou mais ainda que é o ciberespaço.

Como lidar com todas essas coisas é o que os professores que formam professores devem pensar. O grande desafio da educação é justamente esse: não formar um professor com conhecimentos já envelhecidos, mas sim um profissional da educação que seja capaz de vislumbrar no mar das tecnologias de informação e comunicação que estão surgindo e surgirão dentro de pouco espaço de tempo, as possibilidades de novas carreiras e novos postos de trabalho para seus alunos.

O conceito de simbiose utilizado por Morin, pode ser inserido na escola desde os anos iniciais da pré-escola: colocar a humanidade na Terra, valorizando-a, respeitando o meio ambiente, preservando a biodiversidade e o pluralismo cultural e coexistindo pacificamente com o ciberespaço, que graças à nanotecnologia, poderá armazenar tudo aquilo que nos restou do processo de devastação que nos precedeu e armazenará o que ainda virá.

REFERÊNCIAS

Brenman, J. Shift Happens: apresentação em PowerPoint no blog The Fisch Bow, in www//thefischbow.blogspot.com/2006/08/did-you-know.html. Acessado em 07.07.2008

Morin, E. et alii. Educar na era planetária: o pensamento complexo como método de aprendizagem pelo erro e pela incerteza humana. São Paulo: CORTEZ ED. Brasília: UNESCO. 2003

NÚMERO DE INTERNAUTAS brasileiros já passa de 41 milhões, Agência estado, in http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL629602-5598,00-NUMERO+DE+INTERNAUTAS+BRASILEIROS+JA+PASSA+DE+MILHOES.html. Acessado em 03.07.2008

Pais, C.T. Sistema de valores, sistema de crenças, imaginário coletivo: investigações semióticas, in I Encontro: Mestrado em Semiótica, Tecnologias de Informação e Educação, UBC. Mogi das Cruzes. 2004

Sousa Santos, B. O fim das descobertas imperiais, Oliveira, I.B. & Sgarbi, P (orgs): Redes culturais – diversidade e educação.Rio de Janeiro: DP&A. 2002.

WIKIPÉDIA, Youtube, in http://pt.wikipedia.org/wiki/Youtube. Acessado em 07.07.2008

MULTICULTURALISMO E TECNOLOGIAS EDUCACIONAIS: PADRÕES IMPOSTOS, BOLSÕES SEMIÓTICOS NEGADOS

1. Introdução

Este texto se propõe a apresentar o fenômeno do multiculturalismo latino-americano e por extensão o brasileiro sob a ótica das tecnologias educacionais.

O discurso hegemônico da educação ocidentalizante criou estigmas que perduram até hoje na América Latina e sufocou bolsões semióticos, ou no dizer de Zaoual (2003:28) os sítios simbólicos de pertencimento, cujo conceito é “um marcador imaginário de espaço vivido” que pode ser entendido em múltiplas escalas desde a célula de um grupo cultural reduzido, aumentando sua irradiação para os meios rurais ou urbanos e estendendo – se a um determinado país ou próprio planeta, onde encontramos o “ser planetário” de Morin (2003)

A revolução digital baseada no desenvolvimento de hardwares, na expansão das telecomunicações e no crescente aparecimento de novas soluções em softwares, teve como conseqüência uma internacionalização das idéias, uma vez que a produção institucionalizada e a difusão generalizada de bens simbólicos trouxeram um “temor do nivelamento” (MATTELART: 2005;17) ameaçando o futuro das individualidades, a manutenção da integridade de sítios simbólicos que já existiam antes da colonização, daqueles que se formaram pelo amálgama das culturas que para cá vieram e pelos recentes bolsões criados por modismos, tendências ideológicas e minorias excluídas.

Educar num panorama em que a desreferencialização do sujeito é um processo constante, é um desafio que o professor encontra todos os dias, acrescido a ele, há ainda, a necessidade de se manter familiarizado com as políticas públicas de inserção tecnológica, que parecem ser priorizadas diante da inserção social.

2. Crescimento econômico, complexidade e diversidade cultural

Para Zaoual (2003:98) “A lógica do crescimento econômico é incompatível com a ecologia, e a preservação da diversidade das culturas”. Este autor se reporta a Gandhi quando este afirmou que para a Inglaterra se desenvolver precisou do planeta inteiro. Zaoual (id.;ib) vai além quando questiona o desenvolvimento da China com seu um bilhão e meio de habitantes, tomando esse mote, refletimos o mesmo quando o assunto é Brasil. Salvaguardadas as devidas proporções e levando – se em consideração que o modelo econômico capitalista – colonialista já usurpou grande parte de nossa biodiversidade e achatou nossa diversidade cultural, é urgente o surgimento de ações efetivas que preservem nossos sítios simbólicos.

Os mecanismos de acumulação de capital, a concorrência nos mercados, o desenvolvimento científico e tecnológico que proporcionam o trânsito internacional de bens materiais e simbólicos numa velocidade vertiginosa, como já citamos anteriormente, levou a uma tendência de uniformização do sujeito.

Enquanto a arte contemporânea foi em busca da subjetividade, a partir dos movimentos de vanguarda no início do século passado, o contrário ocorreu com a economia de mercado e com a mídia: os padrões globalizantes que aparecem na década de 50 do século XX, ditados pelo “American way of life” obscureceram, paulatinamente, a percepção dos sujeitos.

Ao mesmo tempo em que atravessamos este fenômeno, o nascimento do conceito de democracia moderna nascido pós – segunda guerra foi fazendo com que emergissem alguns paradoxos.

O nivelamento ameaça a democracia, a perda do sujeito faz ascender uma crise econômica, social, política e ambiental que se faz sentir nos países mais pobres acirrando a desigualdade na distribuição de renda que causa o empobrecimento da diversidade cultural, fadando os sítios simbólicos ao desaparecimento e até mesmo ameaçando a democracia.

3. Globalização, Glocalização e Educação

À medida que as sociedades ocidentais se tornaram mais urbanas, houve um declínio do analfabetismo, mas isso não significou uma preocupação maior com a Educação, mas sim uma campanha de mercado, uma vez que a tecnologia adentrou na indústria gráfica cuja expansão desembocou em instituições voltadas para a produção de bens simbólicos. Era uma lógica de mercado que surgia em fins do século XIX e que se configurou a partir de meados do século XX com a emergência de grandes empresas de produção e difusão de bens simbólicos.

A euforia provocada pela expansão do jornal, do cinema, da televisão e da propaganda inicialmente, colaborou com o fenômeno da globalização de um lado, por outro lado, desde a escola de Frankfurt, vieram os alertas de que o nivelamento era inevitável, que estava surgindo uma outra forma de colonialismo, assim as duas últimas décadas do século XX trouxeram filósofos que revisitaram o conceito de globalização e perceberam que ela ameaçava a democracia, desrespeitava as minorias.

Surgiu então o vocábulo “glocalização” que abriga o conceito de respeito às minorias, ou um momento , um determinado sítio simbólico pode fazer emergir a sua voz.

Segundo Perisse (2001:1)

“Glocalização é escrever “best way” sem complexo de inferioridade e achar o máximo que o povão já esteja falando “vou comer no “serv – serv” em vez de self service. Parafraseando Eça de Queiroz, glocalização é fazer questão de falar mal a língua estrangeira e bem o próprio idioma”. Talvez não seja só isso, é preciso refletir mais profundamente sobre esse conceito.

Momentos atrás citou-se a ameaça ao futuro que o nivelamento pode provocar no sujeito, fazendo com que este perca sua individualidade, por isso, a palavra glocalização deve ser medida nos efeitos por ela causados nos últimos vinte anos: 1. nos fenômenos midiáticos; 2. tecnológicos e 3. educacionais.

Nos fenômenos midiáticos houve uma solução paliativa, no mínimo hipócrita, que fez com que surgissem os correspondentes regionais num primeiro momento, no caso do jornalismo, num segundo momento uma expressiva pesquisa de mercado começou a descobrir nichos ainda não atendidos como as mulheres, as crianças, os idosos, os afro – descendentes, os homossexuais, os profissionais de várias áreas, os produtos midiáticos empresariais, (os news – letter) enfim foram surgindo diferentes gêneros de produtos midiáticos para atender à recente “descoberta” das minorias necessitadas de informação. Na televisão não foi diferente, surgiram as afiliadas, distribuídas pelas microrregiões do país, que obedecem aos rigorosos horários estabelecidos para a publicidade e para o jornalismo local, tudo controlado pelo satélite.

Nos fenômenos tecnológicos, Marx, via Feenberg (2005) previu corretamente que as tecnologias seriam aplicadas inicialmente no setor privado, e que sua aplicação seria exportada muito tempo depois para o setor público influenciando campos da administração, saúde e educação.

No setor privado fica bem clara a superestrutura criada pela tecnologia. Grandes instituições financeiras se articularam em pequeno espaço de tempo para a implementação de redes de informação e bancos de dados cada vez mais eficientes de modo a controlar o mercado de capitais.

A glocalização na tecnologia ainda sofre de hipertrofia, uma vez que poucas pessoas têm acesso a ela. A democratização da tecnologia deve trazer novos designs para atender algumas necessidades culturais específicas. Por enquanto, alguns produtos para portadores de necessidades especiais e um pequeno incentivo ao uso de software livre se delineia no Brasil por falta de vontade política. A utilização do software livre e do “copyleft” pode ser uma brecha para nosso último ponto: a Educação.

Sendo assim, o fenômeno da globalização e seus reflexos na Educação vêm desde o período colonial que institui os paradigmas ocidentais na Educação: nos currículos, nos conteúdos e na arquitetura dos edifícios escolares.

A Educação Brasileira é marcada pela influência do colonizador desde a arquitetura dos prédios escolares. Num país tropical como o nosso, a maioria dos prédios não se utiliza áreas de ventilação nem de iluminação natural característica dos países abaixo da linha do Equador, mas sim de prédios fechados de janelas pequenas e de pouca ventilação.

Assim também os currículos e conteúdos contêm sempre os recortes do colonizador, a supremacia do branco e seu heroísmo, escondendo o holocausto de nossos índios denunciado por Padre Antonio Vieira e a dilaceração da raça negra subjugada por centenas de anos e que ao ser libertada, não recebeu nenhuma indenização por perdas e danos, o que acabou gerando pobreza, miséria, violência, enfim bolsões sócio – culturais negados. No final do século XX, esses bolsões começam a irromper com a abertura política do país, forçando a mídia a mostrá-los ou como forma de espetáculo no caso do carnaval ou como forma de tragédia como nos casos de chacinas, de violência, de perversões.

Coincidentemente nesta época tem – se uma tentativa de glocalização das políticas públicas educacionais, quando surgem os Parâmetros Curriculares Nacionais que no papel previa projetos políticos pedagógicos que respeitassem a comunidade local, mas como outras ações, estas não saíram do papel ou foram distorcidas e acabaram por se transformar no cínico vale tudo que a lei do menor esforço que rege o país consagrou.

Ao analisarmos a produção de material didático no país, observa-se que não só os livros didáticos que passam pelo processo de avaliação do Ministério da Educação, mas também as instituições que produzem material didático apostilado negam sítios simbólicos importantes dentro da diversidade cultural brasileira.

Desvanecem da memória do povo produções artísticas populares, folclóricas e religiosas em conseqüência da falta de pesquisas que possam ser aplicadas no desenvolvimento de material didático mais abrangente, que vislumbre conteúdos globais e locais ao mesmo tempo.

Assim como o material didático, a tecnologia não recebe o tratamento que deveria. A conscientização de docentes de que as tecnologias podem ser desde o giz e a lousa até o computador e que isso só melhora seu desempenho e o do aluno, precisa despontar, da mesma forma, é preciso compreender que a informática e a rede mundial de computadores podem servir como aliados, como fonte de material para seleção de informação adequada, bem como de espaço gratuito para se compartilhar resultados de experiências, como por exemplo as redes sociais, os blogs e os fotologs.


4.
Considerações finais

Há finalmente, que se orientar os profissionais da educação a utilizar adequadamente as tecnologias físicas (lousa, giz, livro, computador), as organizacionais (diários de classe, fichas de alunos e resumos de aula) e comunicacionais (principalmente a Internet) a fim de que, como formadores de opinião eles possam multiplicar seu uso. As tecnologias da Informação e da Comunicação são primordiais para a construção da identidade daquele sítio simbólico, seja da sua classe, seja da sua escola.

A construção de blogs, cada dia mais acessível pode ser uma brecha para que os docentes, conscientes de seu papel de formadores de opinião, possam configurar e customizar seus espaços de inteligência coletiva de modo a forçar uma inclusão digital mais decente e mais urgente.


5.
Referências Bibliográficas

BONINI, L. M.M. Teoria crítica da Tecnologia – um panorama, tradução do texto original Critical Theory of Technologi – na overview (2005), in www.sfu.ca/naudrewf/feenberg_luci.htm#_ftnl, acessado em 05.07.2008.

MATTELART, A.. Diversidade cultural e mundialização. São Paulo: Parábola. 2005.

MORIN, E. et alii. Educar na era planetária: o pensamento complexo como método de aprendizagem pelo erro e incerteza humana. São Paulo: Cortez Ed e Brasília: UNESCO. 2003

PERISSE, G. Glocalização, Cosmo on line, in www.kplus.cosmo.com.br/materia.asp?co=428rv=colunistas. Acessado em 05.07.2008.

ZAOUAL, H. Globalização e Diversidade Cultural. São Paulo: Cortez, 2003.