Por um lado temos a falta de consciência da preservação do planeta como um organismo vivo e a presente ameaça de testes nucleares, a solidariedade com o próximo e com a iminente catástrofe anunciada pelo aquecimento global, por outro, temos a depredação, por interesses econômicos de biomas ricos em diversidade como a Floresta Amazônica, por exemplo. Convivemos, ainda, com a existência de uma rede de telecomunicações servida por fibras óticas de diâmetro infinitesimal que passam pelo fundo de uma agulha, mas que têm a capacidade de enviar dez trilhões de bits de informação por segundo – o equivalente a 1900 CDs ou 150 milhões de chamadas telefônicas por segundo – que contrastam com inúmeras comunidades que ainda não foram servidas pela eletricidade e outras, há, ainda, que não se alfabetizaram. Assistimos a uma falta de esforço no fortalecimento dos sistemas educacionais do mundo e, acredito que a Educação é uma das trilhas que tornaria o homem apto a substituir as diferenças pela convivência multicultural, pela tolerância, pela ajuda mútua, pelo respeito ao meio ambiente, por uma humanidade que inclua tudo isso em si mesma.
- O percurso do Ocidente
“As últimas décadas, com o aproximar do fim do segundo milénio, tem sido um tempo fértil para a emergência de fenômenos milenaristas ou apocalípticos, um pouco por toda parte, mas sobretudo nos Estados Unidos da América, onde o milenarismo – a América como nova Jerusalém – faz parte do mito americano.”
o que nos remete, como o próprio autor continua a lembrança de uma sucessão de fatos como guerras, genocídios, AIDS, as transformações climáticas, as catástrofes nucleares, a desintegração da família, o fundamentalismo e o surgimento de personalidades políticas que encarnam uma visão apocalíptica e de artistas engajados que lutam por outros ideais.
O Oriente, o selvagem e a natureza, para o autor, foram descobertas do imperialismo ocidental, essas descobertas levaram a uma apropriação do descoberto, a ter poder sobre ele, e essa sombra perdura até os nossos dias.
O Oriente, seu primeiro espelho, foi descoberto no início do segundo milênio com as cruzadas, cujo objetivo foi retomar Jerusalém para os cristãos, mas o que houve foi um encontro com o mosaico que denotava uma Idade do Ouro, que contrastava com a incipiência da civilização ocidental rudimentar, calcada no cristianismo e na idéia de mortificação do corpo para salvar a alma. O Ocidente não incorporou o Oriente à sua convivência mas sim rechaçou sua cultura ao deparar-se com a religião islâmica e esgotou suas reservas de riquezas.
A descoberta do selvagem, na metade do segundo milênio, trouxe o lugar da inferioridade. Tanto o índio, como o escravo trazido à força, depois, não eram considerados humanos, não davam valor aos metais preciosos que o Oriente dava, nem mesmo construíram impérios com exemplos arquitetônicos deslimbrantes como as Muralhas da China e o Taj Mahal, embora as civilizações Inca e Maia tenham deixado um tesouro material e cultural incalculável - o primeiro foi dilapidado e segundo sufocado.
A violência civilizadora do Ocidente trouxe a ambigüidade ente o paradigma missionário e o da exploração. O primeiro conseguiu preservar poucas coisas e poucas pessoas, os que restaram ou foram salvos pelos missionários ou refugiaram-se em lugares de difícil acesso, conseguindo resistir. Com os negros não foi diferente, alguns foram convertidos, outros burlaram a religião e criaram o sincretismo religioso, outros se libertaram e foram viver nas comunidades quilombolas, outros se mantiveram no cativeiro, estes últimos, por não terem sido indenizados pelo Estado, geraram um bolsão de pobreza, miséria e fome e assim como o Oriente, não foram incorporados ao Ocidente.
A Natureza, a terceira descoberta do milênio é o lugar da exterioridade. O distanciamento do homem ocidental da natureza deu-se pelo equívoco do conhecimento sobre ela, pelo tardio desenvolvimento científico que constatou que muitos recursos não eram renováveis e outros levariam anos para se renovar.
A Rio-92 foi o primeiro alerta de que a natureza precisava ser preservada, depois disso, iniciou-se uma jornada de discussões que levariam o homem a acreditar naquilo que era evidente: ele é parte constituinte da natureza, não algo além dela.
Sousa Santos conclui seu pensamento chamando essas descobertas de imperiais, mas gostaria de chamar a atenção para uma quarta, que nasceu concomitantemente à descoberta da natureza e nasceu justamente no centro do império: o ciberespaço. Seu alvorecer no final do século XX e seu estabelecimento no começo do terceiro milênio também fez emergir o poder e o saber.
Como as outras descobertas, o ciberespaço é uma resultante da economia. Fruto da ciência e da tecnologia da civilização ocidental, é ele que consagra construções faraônicas de bilhões de bites, que se colocados em CDs criariam monumentos maiores que aqueles já mencionados, ou ainda maiores que as Pirâmides do Egito e a Esfinge de Gizé, assim como a natureza é externo ao homem, por ser um universo de seres meio homem, meio máquinas, meio textos, meio cenários que ele domina e escraviza, pode ser algo interno a ele como o Oriente e o Selvagem.
Da mesma forma que Sousa Santos (2002; 35:36) questiona:
indo mais adiante, podemos perguntar: é possível substituir um ciberespaço por uma humanidade que o inclua, substituí-lo pela igualdade na diferença e também substituí-lo pela convivência multicultural?
Paradoxos como as vozes que emergem de reuniões do G8, cujas políticas são da manutenção de seu poderio econômico, e outras que ecoam no Fórum Mundial, que expressam sentimentos contrários à economia globalizante como uma ameaça às identidades e à democracia.
O pensamento complexo, a planetarização no dizer de Morin, é a idéia do mundo como “pátria comum” (2003:87). Embora estejamos, na nossa realidade física, distantes disso, o ciberespaço já começou com alguns adeptos desta idéia que vem se fortalecendo ultimamente. Se por um lado ainda não assistimos a substituição da natureza pela humanidade, os habitantes do ciberespaço – talvez não tenham se dado conta disso – estão em processo de; pois muitos compartilham da idéia de que o ciberespaço deve ser aberto a tudo e a todos.
Termos como inteligência coletiva, redes sociais, blogosferas são incorporadores de conceitos de convivência democrática entre indivíduos planetários. A noção democrática implícita nos softwares livres, na Wikipédia, no Copyleft, no compartilhamento de arquivos – filmes, documentos, entre outros – é comum entre os usuários da Internet.
A idéia de um ciberespaço com informações acessíveis a todos é bem aceita, da mesma forma que tem sido bastante efetiva a denúncia de abusos em seu interior.
Talvez por isso, educar na era planetária seria tomar como exemplo a simbiose que se esboça no ciberespaço.
“O ser humano é um animal cultural, social e histórico. Dotado de inteligência e sensibilidade, é, a um tempo racional e afetivo. Exerce permanentemente uma atividade cognitiva. Para a compreensão das coisas que o cercam e para a sua atividade, utiliza como instrumentos de intermediação entre ele mesmo e os outros, entre ele mesmo, os outros e o mundo envolvente, sistemas simbólicos, ou seja, procesos semióticos verbais – as línguas naturais –não verbais – pintura, escultura, arquitetura, música, dança, fotografia etc – e sincréticos – teatro, cinema, televisão etc.
Através desses processos semióticos o ser humano constrói, conhece e interpreta as coisas do mundo são transformadas em recortes culturais” (gn)
Tomemos como ponto de partida que o ciberespaço é um processo semiótico sincrético, tal como o cinema e a televisão, pois compreende linguagens digitais, informações, seres humanos, seres meio-máquinas, meio-textos, meio-atores, meio-cenários. Universos paralelos onde avatares escondem imperfeições humanas que vivem aventuras impossíveis para seres humanos e espaço depositário de inúmeras vozes que alimentam o projeto econômico da globalização, mobiliza grandes fortunas com a venda pela Internet; outras vozes que gritam pela liberdade de expressão e outras, ainda, ecoam a violência, o terrorismo, a pedofilia e assim por diante. Um lócus polifônico onde a educação tem dado mostras de que pode tê-lo como aliado.
Numa busca ao youtube – site de compartilhamento de filmes – aparecem 56.400 resultados para a palavra aula, no momento em que este texto é escrito. Aulas diferenciadas como de inglês, culinária, softwares etc. Numa busca para trabalhos escolares, os números apontam: 3570 trabalhos de Artes, 3160 de Inglês, 2790 de História; 2100 de Português; 1060 de Filosofia, os números vão decrescendo para algumas áreas do conhecimento, mas até Matemática conta com 288 trabalhos postados no site. A soma da busca, neste ato, abrangendo mais algumas áreas do conhecimento chegou a 15.000 postagens de vídeo de trabalhos escolares da Educação básica e da superior. Segundo a Wikipédia cerca de 20 mil novos vídeos são compartilhados por ano no youtube e trinta milhões de vídeos são vistos diariamente.
Outra plataforma como a Google vídeo apresenta 167.000 vídeos com a palavra Education no título, já com a palavra Educação, aparecem 16.000.
Alguns números no ciberespaço são grandes, segundo Brenman (2006) havia 106 milhões de pessoas registradas na rede social MySpace até setembro de 2006, se ele fosse um país, seria o décimo primeiro maior país do mundo – entre o Japão e o México.
Ainda, segundo o autor, são feitas, em média, 2,7 milhões de buscas no Google a cada mês. Estima-se, que em 2006, 40 exabytes (4.0 x 10 19) de informações novas foram geradas, isso representa mais do que foi gerado nos últimos cinco mil anos da existência humana, enquanto isso, o acúmulo técnico de informação dobra a cada dois anos, isso significa que quando alguém chegar no seu terceiro ano de faculdade, tudo o que aprendeu no primeiro ano já estará obsoleto.
Estima-se ainda, que a informação gerada pela humanidade dobrará a cada 72 horas a partir de 2010 e para Bernman, isto pode representar uma utilização maior do papel eletrônico em substituição ao papel real, assim como, o aumento das vendas de laptop: 45 milhões foram vendidos em 2005 e o conhecido projeto do laptop de cem dólares deve atingir de 50 a 100 milhões de crianças por ano nos países subdesenvolvidos.
Segundo o IBOPE, o Brasil tem mais de 41 milhões de pessoas que acessam a Internet de sua casa, isso representa mais do que a população de argentinos no mundo.
A rede social ORKUT, só no Brasil tem mais de 1000 comunidades que contém a palavra educação, numa delas, intitulada: O Brasil precisa é de Educação, conta com 61.114 membros e os fóruns são bem freqüentados e ricos em conteúdo, a exemplo de um participante que apresenta o “bookcrossing”, um programa mundial de incentivo à leitura alocado no site: www.livr.us, onde você cadastra um bom livro, juntamente com seus comentários e pega um código de identificação correspondente ao livro, em seguida ‘perde-se’ o livro em algum lugar público e aguarda-se que quem o encontrou entre na Internet e apresente o paradeiro dele. Assim, se pode acompanhar a travessia do livro pela rede.
Estes exemplos demonstram apenas uma pequena utilização do ciberespaço na Educação, alguns números apresentados, servem apenas para nortear, pois esses números variam bastante, aumentando a cada dia.
Esses recortes feitos pretendem demonstrar que os processos semióticos do/no ciberespaço crescem em progressão geométrica e mesmo que haja resistências ele fatalmente atingirá a Educação, a sala de aula e o professor, pois caminhamos para o pensamento complexo e para a planetarização.
As mesmas discussões que atualmente se faz sobre diversidade cultural e inclusão na realidade mesma em que o ser humano vive, deve ser iniciada agora com relação ao ciberespaço e a pós-humanidade que ele configura.
Com todo o conhecimento que a humanidade tem de si própria hoje, ela ainda não tomou consciência da urgência da manutenção da biodiversidade do planeta, da preservação da natureza e da diversidade cultural que pulsa na superfície da Terra defrontando-se com outra realidade, tão multifacetada ou mais ainda que é o ciberespaço.
Como lidar com todas essas coisas é o que os professores que formam professores devem pensar. O grande desafio da educação é justamente esse: não formar um professor com conhecimentos já envelhecidos, mas sim um profissional da educação que seja capaz de vislumbrar no mar das tecnologias de informação e comunicação que estão surgindo e surgirão dentro de pouco espaço de tempo, as possibilidades de novas carreiras e novos postos de trabalho para seus alunos.
O conceito de simbiose utilizado por Morin, pode ser inserido na escola desde os anos iniciais da pré-escola: colocar a humanidade na Terra, valorizando-a, respeitando o meio ambiente, preservando a biodiversidade e o pluralismo cultural e coexistindo pacificamente com o ciberespaço, que graças à nanotecnologia, poderá armazenar tudo aquilo que nos restou do processo de devastação que nos precedeu e armazenará o que ainda virá.
REFERÊNCIAS
Pais, C.T. Sistema de valores, sistema de crenças, imaginário coletivo: investigações semióticas, in I Encontro: Mestrado em Semiótica, Tecnologias de Informação e Educação, UBC. Mogi das Cruzes. 2004


