1. Introdução
A criança tem sido utilizada com uma certa insistência pela mídia, pois simboliza a pureza, a segurança, a ternura, a proteção entre outras virtudes e necessidades humanas.
Os mamíferos são, entre os animais, os que mais tempo ficam com seus filhotes, por isso o grau de dependência é muito maior entre os pais e a cria. Entre eles, ainda, o homem é o que mais tempo depende dos pais, e talvez, esse seja o motivo pelo qual a utilização de crianças produza sempre o efeito persuasivo esperado pela publicidade e pelo jornalismo.
Neste percurso procura-se enfocar alguns exemplos da utilização da criança no discurso midiático, especificamente quando o adulto é o alvo desse discurso, para isso, escolheram-se revistas dirigidas para o público adulto de circulação nacional: Isto é, Veja, Meu Nenê e Pais e Filhos.
Algumas peças publicitárias que anunciam produtos e serviços para adultos utilizam a imagem da criança como geradora de certos símbolos.
No discurso jornalístico, analisa-se a cobertura jornalística de parte da gravidez de Xuxa e do nascimento de sua filha Sasha, em alguns exemplares das Revistas Caras, Manchete, Contigo, Amiga e Ana Maria, cujo público alvo é eminentemente feminino que se interessa pela vida privada de pessoas públicas, e editores que se interessam em devassar a vida privada de pessoas públicas que se interessam e tornar-se mais públicos ainda.
Veremos que ambos discursos se cruzam em certos momentos, e se distanciam em outros: a criança é veículo para se atingir o desejo de consumo do público adulto, e por outro lado, enquanto o discurso publicitário mostra uma família padrão, sonho da sociedade capitalista, o discurso jornalístico, preferencialmente opta pelas rupturas, pela noticiabilidade de um determinado fato ( o normal, o esperado não vira notícia).
2. A Natureza do discurso midiático
O discurso publicitário é uma falácia que aspira à verdade, enquanto o discurso jornalístico é uma verdade falaciosa.
Explicando melhor: o discurso publicitário é aquele que rodeia o produto que anuncia, de um mundo de sonhos, de promessas e de desejos, envolvendo-o de uma aura, sacralizando-o . Por meio de efeitos visuais, táteis, auditivos, olfativos e gustativos atrai a atenção do consumidor despertando o desejo, a vontade de adquirir o produto, utilizando certos recursos que fazem disparar na mente do consumidor seus instintos, sua sensibilidade, sua imaginação, desencadeando suas representações de mundo capitalista, é signo de si mesma por satisfazer o consumidor pelo consumo da própria propaganda.
O discurso jornalístico, por sua vez, dá a sua versão de uma dada realidade, o fato só vai para a mídia depois de mensurado o seu grau de noticiabilidade. Recria-se o real que pode virar notícia; nem tudo o que é real pode ser notícia, porém o inusitado, a aberração, ou até mesmo o mais normal dos fatos, precisam sofrer um distanciamento do humano para serem retomados como extraordinários e acabarem ganhando o status de notícia, a fim de que se possa consumir o veículo e não ficar necessariamente informado.
Tanto o discurso publicitário quanto o discurso jornalístico vendem algo, o primeiro vende um bem de consumo ou um serviço enquanto o segundo vende um suporte.
3. A criança e a Mídia
3.1 A criança como sujeito
Faz pouco tempo, na história da humanidade, que a criança tem seu lugar assegurado enquanto sujeito dentro de uma coletividade.
A individualidade da criança, suas características intrínsecas e suas necessidades foram sendo descobertas e respeitadas a partir do advento da psicanálise, dos estudos freudianos sobre a personalidade ao longo do desenvolvimento humano.
Freud pensou a infância desde sua própria e seus problemas com o pai e a admiração pela mãe. Ao analisar os primeiros estádios da evolução da psique humana, ele estudou o comportamento infantil e abriu caminho para outros darem, à criança, um lugar que a ela cabia, com necessidades e desejos próprios, não como um adulto em miniatura como se acreditava na Idade Média.
Com as novas pesquisas, viu-se que a criança em sua incompletude, com características específicas em cada fase, como nos ensina Piaget, ou ainda, Vigotsky e sua teoria sobre a interação da criança com o meio. Outros pensadores há, que contribuíram para acrescentar elementos para uma melhor compreensão do universo infantil, porém, isto não é objeto deste trabalho.
À medida que a criança foi pensada como um indivíduo, ela foi passando a fazer parte de outros universos ou até mesmo, virou alvo do mundo capitalista.
Os contos de fada do passado, o único produto destinado a elas, cujos personagens são, em sua maioria, adultos, foram sendo substituídos por outros produtos.
Na mídia, esses produtos foram surgindo lentamente, as histórias em quadrinhos na segunda década deste século já procuravam o universo infantil. Charles Chaplin também não as deixou de lado e Walt Disney, acabou por transformá-las definitivamente como alvo de produtos pensados para elas, inserindo-as, em fins da década de 50 e início da de 60, num mercado que mais tarde o transformaria num milionário.
No Brasil, na década de 60, a televisão começa a conceder lugar à criança. Surgem alguns programas vespertinos dedicados a elas: PIM PAM PUM, patrocinado pela fábrica de brinquedos Estrela, Circo do Arrelia e o programa PULLMANN Júnior. Na década de 70, a criança ganha espaços maiores na programação matutina e vespertina e os mais afoitos passam a chamá-la de babá eletrônica. Essa discussão é extensa e aqui não é nossa intenção aprofundá-la
Vários veículos de comunicação diferenciados foram surgindo, e a cada dia, com o aparecimento de novos segmentos no mercado, os veículos se diversificam, procurando atender a todos os gostos, principalmente a mídia impressa, e mais especificamente as revistas.
Os periódicos se caracterizam como um tipo de lazer das classes de padrão de vida mais folgado, embora haja exceções. Elas circulam entre as classes A e B e em alguns casos, na C. Dada a concorrência, a oferta aumenta e cada vez mais as pessoas têm acesso a periódicos que atingem diferentes interesses, diferentes segmentos da sociedade.
As revistas têm a vantagem de ter maior expansão geográfica, já que circulam em todo território nacional, e principalmente, são portadoras de algumas vantagens sobre o jornal, entre elas: permitem melhor reprodução de imagens, têm maior durabilidade, o que proporciona textos mais longos, e trabalham com fatos menos efêmeros. Por terem assim, vida física mais longa do que o jornal, elas têm porcentagem maior de leitores por exemplar.
As revistas, também por causa da melhor apresentação, exige uma campanha publicitária e um texto jornalístico mais bem acabado e por circular por todo país, exige campanhas publicitárias e textos mais abrangentes, sendo assim, os estudos de caso que seguem, pertencem às revistas de circulação nacional de grande tiragem e elas foram selecionadas por se dirigirem a um público adulto e não muito específico. Para os casos publicitários, selecionamos peças nas revistas: Veja e Isto É, cujo público alvo é bem diversificado e da faixa etária do jovem ao adulto, selecionamos também Pais e Filhos e Meu Nenê, mais dirigidas às mães, futuras mães e familiares preocupados com o bem estar das crianças mais próximas.
Para a análise jornalística, selecionamos algumas revistas que cobriram a gravidez de Xuxa e o nascimento da sua filha Sasha, entre elas: Caras, Contigo, Amiga e Ana Maria cujo público alvo são mulheres de todas as idades e principalmente aquelas que gostam de saborear a vida privada das pessoas públicas, e a Revista Manchete, por sua vez, que circula no país há várias décadas, e que mantém um público diversificado, que opta por um jornalismo mais leve e ilustrado.
4.Estudos de Caso
4.1 A publicidade
No Código Brasileiro de auto Regulamentação Publicitária, no capítulo II, seção 11, artigo 37 encontramos:
“(...)
f) o uso de menores em anúncios obedecerá sempre a cuidados especiais que evitem distorções psicológicas nos modelos e impeçam a promoção de comportamentos socialmente condenáveis;
g) qualquer situação publicitária que envolva a presença de menores deve ter a segurança como primeira procuração e as boas maneiras como segunda.”
De onde se conclui que a exploração indevida da imagem de uma criança é anti-ético na publicidade concluímos também, que assim como o próprio código prevê a segurança como primeira preocupação, saberemos que não se coloca uma criança em situações difíceis para filmar, fotografar ou falar, uma vez que crianças são imprevisíveis e espontâneas.
4.1.1 Caso no. 1: Mon Bijou
A peça publicitária é uma criação da ALMAP/BBDO para o produto Mon Bijou, da Bom Bril.
A Criança na foto tem reveladas suas características eminentemente femininas, assim como o olhar expressivo, o brinco, a flor na cabeça e o buquê entre as pernas, esse último acentua, ainda mais, a carga de sensualidade à foto.
Se acrescentarmos a isso a palavra mulher no texto: “Ainda está para nascer uma mulher que não goste de receber flores.”, teremos a carga semântica do erotismo da foto aumentada e nos deparamos com uma imagem distorcida psicologicamente, o que o código citado anteriormente proíbe.
Algumas reflexões poderiam ser feitas com base neste tipo de exploração da imagem infantil, como por exemplo que a insistência de certas campanhas publicitárias em expor crianças em situações como essa, pode provocar comportamentos socialmente condenáveis. Erotizar crianças estimula a pedofilia.
Na rede mundial de computadores, por exemplo, existe uma campanha contra a pornografia infantil, que se alastra a cada dia, arrebanhando cada vez mais adeptos, e muito provavelmente, pelo excesso do uso de imagens infantis erotizadas.
4.1.2 Caso no. 2 Nestlé- Mom
Neste caso a peça pode ser considerada eticamente correta. Publicada como última capa da revista Meu Nenê de Maio de 98 não traz o crédito da agência.
Os recursos visuais foram feitos com o auxílio da computação gráfica, que inseriu no cenário o trono, o manto real e a coroa na cabeça do bebê.
O texto faz um diálogo com os contos de fada. Essa intertextualidade produz um efeito semelhante à intertextualidade da imagem: real e virtual se entretecem num conjunto semiótico.
O produto anunciado reforça a campanha nacional feita recentemente pelo governo brasileiro, que aconselhava as mães, à amamentação. Essa campanha institucional procurou atingir todas as classes sociais, no caso em questão, a mãe das classes A e B são o alvo.
Além de utilizar a imagem da criança como a figura central, no caso o casal de príncipes esperam um rei, outros recursos semióticos ligados à criança, principalmente a pureza.
4.1.3 Casos no. 4, no. 5 e no. 6: Banco Real, Bradesco e APLUB
Os três casos têm como base a mesma preocupação: segurança, estabilidade e proteção. Todas envolvem situações familiares muito próximas dos leitores da revista: situação doméstica de café da manhã (4), situação de viagem (5) e de brincadeira em família (6).
O anúncio de número 4 tem o crédito da agência ITAPEVA e foi publicado na Revista Pais e Filhos, Família de Agosto de 98, o seguinte tem o crédito da agência ARTPLAN e foi publicado na revista Isto É de 08.07.98 e finalmente a de número 6 tem o crédito da MCL Comunicação, e foi publicado na mesma revista anterior, em sua edição de 19.08.98.
O que esses três anúncios têm em comum é a idade dos pais e a idade dos filhos. Uma família feliz, ainda com os filhotes numa fase de grande dependência e nos casos 5 e 6 o número de filhos é aquele já consagrado pela sociedade burguesa atual.
Como todos esses anúncios estão ligados à situação financeira, o clima proporcionado é de segurança, equilíbrio, proteção. Todos eles modelares para o público leitor, para a classe social que lê a revista.
5. A Gravidez da Xuxa e o Nascimento de Sasha
Desde o seu surgimento na tela da tevê no início da décadas de 80, até hoje a apresentadora Xuxa Meneghel tem sido alvo de críticas, de enxovalhos, de elogios e de invasões de privacidade com que ela mesma concorda.
Rainha dos baixinhos, eleita pela rede Globo de televisão que a promoveu desde sua saída da rede Manchete, Xuxa brincou com os filhos dos outros durante boa parte de sua vida na tevê, de cinco anos para cá, no entanto, o desejo de ser mãe foi sendo propagado, até mesmo para que parecesse um passaporte para o mundo dos adultos, para que ela fosse reconhecida pelos fãs, que já crescidos, também, já eram em sua maioria mães e pais.
Xuxa teve uma carreira singular na televisão, entre as poucas pessoas que conseguiram ficar tanto tempo apresentando programas, ela talvez, só perca para alguns poucos, entre eles Hebe Camargo, Silvio Santos e Fausto Silva.
Ao despontar como estrela na Rede Globo, Xuxa surgiu como exemplo de apresentadora de programas infantis. Era bela, loira, meiga e era tão travessa e criança, que um certo dentista foi às câmeras dizer que ela ainda tinha dentes-de-leite, que isso era possível, porém não era muito comum. Era a figura perfeita para comandar as crianças do Brasil, e a estratégia de marketing mais perfeita ainda, para apagar a imagem da tímida modelo de lingerie e uma atriz de filmes pornôs.
Xuxa bancou a criança por muito tempo diante das câmeras de tevê, virou boneca, sandália, laços de fita e roupas, além de filmes infantis. Tempos depois afastou-se alegando problemas de saúde, tempo necessário para eliminar a imagem criança e surgir a adolescente, mocinha, deixando o Xou da Xuxa para trás e estrelando, desta vez um programa para os mais grandinhos: O Xuxa Park.
A adolescente mudou de programa, de dia da semana, de horário e de público, com brincadeiras e gincanas apropriadas para adolescentes e jovens. A partir daí a imagem da apresentadora veio ligando-se a um público mais velho, que na verdade, era o mesmo, deixado tempos atrás, e que havia crescido.
Mas, um passo a mais deveria ser dado por ela, afinal o tempo é inexorável e a apresentadora precisava realizar o sonho de ser mãe, antes de pôr em risco sua vida e vida de seu filho uma vez que aos trinta e poucos anos, o risco de uma gravidez problemática e um parto difícil são maiores.
Xuxa seguiu à risca o ritual para ingresso na vida sexual: desfilou com namorado famoso, que ao morrer, a própria família a reconheceu como a viúva, em seguida continuou em busca de alguém, e ao encontrá-lo legitimou sua maioridade quando anunciou sua gravidez.
Xuxa sempre transformou sua vida privada em pública. Segundo o presidente da Escola Brasileira de Psicanálise, Jorge Forbes (1998): “Xuxa é um exemplo de um mundo irresponsável que impõe a intimidade como padrão coletivo de comportamento”. Para ele, ainda, isso é obscenidade, que segundo ele significa ‘ir além da cena’. O limite entre o público e o privado, quando se trata de sua vida, inexiste, e todos os acontecimentos (saúde, questões familiares etc.) se transformam num mega evento. Ela chegou a cogitar a transmissão de seu parto em rede nacional.
No início deste percurso dissemos que o discurso jornalístico mensura um determinado fato para transformá-lo em notícia. A maternidade no caso das pessoas famosas é um exemplo disso em dois momentos: primeiro no anúncio da gravidez e depois o nascimento, mas com Xuxa foi diferente. Desde os primeiros momentos tudo foi registrado pela imprensa. Na revista Caras, edição 244 de 10 de julho, Xuxa afirma que a menina será morena como o pai; a afirma ainda: “As pessoas estão esperando que a Sasha nasça loirinha, mas ele deve ser moreninha. Acho que ela será parecida como pai.”
Coisas corriqueiras como essa na vida de qualquer grávida com Xuxa acaba rendendo grandes reportagens. Na capa da revista Contigo, edição 114 de 14.07.98 lemos o seguinte:
“Revelações de Xuxa às vésperas do parto: ‘Nunca precisei tanto de carinho.’” Ainda nesta mesma revista encontramos:
“Como toda grávida, Xuxa está mesmo bastante sensível. Embora muita gente insista em querer vê-la de outro jeito, ela é uma mulher como qualquer outra – pelo menos com relação à maternidade.(...)”
Como vemos a repórter ( Ester Rocha) mesma, faz a ressalva: mesmo entre os mortais, ela não é tão comum assim, é um ser diferente pelo menos com relação maternidade. Mais adiante a reportagem aponta: “O que a difere da maioria das outras mães é o nível de zelo com o bebê e com o próprio corpo.”
Com o próprio corpo é o óbvio, pois ela se assemelha a qualquer pessoa que o use como elemento estético, pois ela depende de sua plástica em forma, pois a beleza é um de seus instrumentos de trabalho, porém não parece possível medir o zelo pelo bebê, a não ser pela extrema preocupação material, afinal, segundo informações que povoaram a mídia o quarto da criança teria 100 metros quadrados, uma piscina e play ground; a maternidade teve toda uma ala reservada para o nascimento da pequena princesa, numa decoração milionária que eliminasse qualquer traço de hospital, entre outros exageros
A revista Caras, edição 247 de 31 de julho fez uma cobertura completa do nascimento de Sasha: Capa e 16 páginas internas que relatavam todos os detalhes do nascimento da criança, inclusive um mapa astral.
A revista Manchete, edição 2417 de 1.08.98 dedicou sua capa e mais nove páginas internas para cobrir o parto e também questionar a imagem passada pela apresentadora. Com o título: “Conto de Fadas Pós-Moderno” , surgem reflexões neste nível: “Durante a gravidez, a apresentadora exibiu ao país um modelo de mãe que não se enquadra aos padrões conservadores. Isto não afetou seu sucesso junto ao público infantil.”
Realmente isso é verdade, mas as crianças não são conservadoras, os adultos o são, e nada mais normal, daqui para a frente, ser mãe solteira, dado o exemplo deixado pela mídia.
Ao ser questionado pela revista Isto É sobre se achava que o fato de a Xuxa ter exposto a gravidez porque se considera um padrão a ser seguido, Forbes (1998) respondeu: “A Xuxa se candidatou a Nossa Senhora do Brasil. Ela se transformou em Virgem Maria e fez de seu namorado um São José de empréstimo. Não foi copulada pelo Espírito Santo, mas pelo povo brasileiro. Talvez seja o maior exemplo de nossa modernidade. Essa exposição pública dessexualiza sua gravidez. Da mesma maneira que na religião, o parto de Nossa Senhora foi dessexualizado. Isso é um desserviço à sexualidade humana. Se o domínio do privado é da responsabilidade de cada um, quanto mais sugiro que o meu comportamento seja padrão, me torno irresponsável.”
A padronização de certos comportamentos entrarão na vida dos seres humanos midiatizados. A revista Ana Maria, número 95 de 03.08.98 traz o pai de Sasha na capa como menção ao dia dos Pais e a seguinte chamada:
“A chegada de Sasha pode unir o ator e Xuxa.”
Este discurso revela a esperança de muitas pessoas: um bebê tem sido a solução de muitos casamentos despedaçados, a chave da reconciliação ou o adiamento da separação. Aliás a reconciliação pode ser um desejo dos leitores, da classe social a que pertencem, ou ainda a completude do conto de fada pós-moderno como a outra revista se referiu.
O mesmo fato surge na capa da revista Amiga, edição especial, número 1474 de 04.08.98, que dedicou oito páginas ao evento. Numa das páginas dedicadas ao ator Luciano Szafir afirma: “O dia a dia dela vai ser normal, embora eu saiba que as coisas são bem mais difíceis para uma filha de pais separados.”
O protagonista de um espetáculo que ficou obviamente fora do conservadorismo, reflete justamente o contrário.
A revista Caras, edição 248 de 07.08.98 traz Sasha e o pai na capa e mais doze páginas com fotos e reportagens. Na capa o pai do bebê afirma: “Ser pai é maravilhoso. Agora quero retomar minha vida com outra mulher.” Nas páginas centrais ao ser questionado pelo repórter sobre o fato de a criança crescer com os pais separados o ator responde: “Hoje ela é filha de pais separados. A educação de uma criança é muito mais positiva durante uma união, mas já que isso não vai ser possível, tentaremos criá-la num ambiente tranqüilo. O bom senso deve prevalecer. Sou o pai e Xuxa é a mãe e, mesmo que não haja uma boa convivência, na frente da nossa filha devemos ter serenidade. Não digo que tenhamos que mostrar um carinho de marido e mulher, mas entre nós não poderá, jamais, haver agressões ou brigas.”
Como vemos duas coisas parecem endossar as palavras do ator primeiro que sua função de homem ou de namorado ao lado de Xuxa deve ter sido mesmo para reprodução, e segundo, o tão pós-moderno conto de fadas é, na verdade, uma relação tão humana e complicada como de qualquer casal de uma sociedade, da qual ele faz parte, e que faz questão de afirmar que a educação de uma criança é mais positiva quando os pais estão juntos.
Na revista Contigo, edição de 11.08.98 na chamada de capa surge: “Xuxa conta como foi a primeira semana de Sasha”. Na reportagem interna entre a felicidade da mãe, a tia, irada, concedia uma entrevista afirmando ter sido impedida de conhecer a sobrinha. Cabe refletir aqui autopromoção, ou furo de reportagem para a revista.
Finalmente a revista Amiga, número 1475, edição de 11.08.98, com sua capa dedicada a Luciano Szafir com a criança no colo e a chamada: “O Dia dos pais de Luciano com Sasha” e mais as seguintes observações: “Irmã de Luciano conta os bastidores da briga com Xuxa”. E ainda: “Lei garante direitos da família Szafir de ver Sasha.”. Percebemos que a imprensa se alimenta de fatos, como já dissemos de alto grau de noticiabilidade; aqui, novamente, o humano se desumaniza para tornar-se notícia. A mídia devassa alcovas e brigas entre cunhadas a fim de aumentar a audiência.
Num bilhete escrito pela tia da criança recém-nascida à revista encontramos a seguinte frase: “Pelo que pude perceber, só posso afirmar que ela não tem nada a ver com a imagem que procura passar para o público.” Numa outra passagem ainda, afirma, “Se eu não conhecesse meu irmão poderia até pensar que eles têm um acordo.” Resta-nos perguntar: quem está promovendo quem? Que importância tem a criança como um novo ser que vem ao mundo, cujo rosto deverá enfeitar pacotes de fraldas, colônias, sabonetes e outros produtos infantis logo mais? Onde está a imagem da criança que a publicidade vista anteriormente procura resgatar para dar mais solidez aos produtos e serviços que oferece.
6. Considerações Finais
Nos casos publicitários apresentados vemos que a criança é um bom canal para se vender produtos para adultos. Os símbolos de uma instituição sacralizada, que é a família, estão arraigados de maneira profunda na cultura brasileira, principalmente nas classes sociais A e B , tanto que a publicidade explora esses valores éticos e utiliza a criança como objeto estético de suas peças publicitárias, fazendo emergir no consumidor seus instintos de proteção, de equilíbrio emocional etc. Utilizando a receita mágica de que um filhote sempre desperta ternura, haja visto grandes exemplos no cinema e na publicidade tais como : os filmes E.T., Gasparzinho e campanhas publicitárias como a Parmalat, por exemplo.
No caso de Sasha, as coisas corriqueiras na vida de uma pessoa foram transformadas em fatos inusitados. Como já se afirmou, houve um distanciamento do habitual, para transformá-lo em inusitado, como se a invasão de privacidade fosse algo ético.
Se por um lado, tornar público a privacidade de pessoas comuns em programas de televisão como Ratinho Livre é uma aberração, por outro, tornar público a vida privada de gente famosa é eticamente aceito por todos, e aqui podemos nos remeter a qualquer cultura, e muitos fatos comprovam isso como o caso da Princesa Diana e do Presidente Bill Clinton. A cultura ocidental, que nasceu sob o signo do pecado tem uma curiosidade de devassar os segredos de alcova.
A pompa em que esses deslizes éticos aparecem, fazem desvanecer o que exatamente de deslize isso representa, pois se é notório, deixa de ser pecado e passa a ser exemplo. A superexposição de valores que são comuns, porém a mídia os envolve com aura sensacionalista e tão ruim com pessoas comuns quanto com pessoas públicas.
A ‘ratinização’, para usar o termo de Mathias Neto (1998), da gravidez da Xuxa e do nascimento de Sasha, e ainda, das contendas familiares elevou os índices de vendagens das revistas onde tudo vira manchete, pois as amigas estão sempre em busca de novas caras.
Assim como os casos publicitários expostos aqui, a cobertura jornalística apresentada têm pontos em comum: os pais são mais importantes que os filhos, porém os filhos são usados como iscas para se alcançar os objetivos de se vender um produto, um serviço ou uma revista.
A mídia constrói e destrói valores éticos com a mesma velocidade das máquinas de impressão. Tanto a publicidade como o jornalismo utilizam-se da estratégia da ‘sobrenaturalização’ do natural, a fim de aumentar a carga semântica do real.
Para citar Kierkegaard (in Berger, 1997:275): “De fato, se a imprensa diária, tal como acontece com outros grupos profissionais, tivesse de pendurar um letreiro seus dizeres deveriam ser os seguintes: aqui homens são desmoralizados com a maior rapidez possível, na maior escala possível ao preço mais baixo possível.”
São os vínculos com os patrocinadores que definem a noticiabilidade, e neste ponto surge uma bifurcação da reflexão que se fez aqui: o patrocinador busca uma agência que se utiliza de paradigmas sacralizados pela sociedade para vender seus produtos, enquanto o jornalismo busca o profano, pois o seu grau de noticiabilidade é mais alto.
Conclui-se com o que já foi dito anteriormente: “o discurso publicitário é uma falácia que aspira à verdade enquanto o discurso jornalístico é uma verdade falaciosa.”
7. Bibliografia
Berger, Christa. Do jornalismo: toda notícia que couber, o leitor apreciar e o anunciante aprovar a gente publica, in O Jornal da forma ao Sentido, PORTO, Sérgio D.(org). Brasília: Paralelo 15. 1997
Mathias Neto, Gualter. A mídia socialmente correta, in Revista da Comunicação. No. 52. Jun/98.
Rodrigues, Adriano. Delimitação, natureza e funções do discurso midiático, in O Jornal da forma ao sentido, idem, ibidem.
Sant’anna, Armando. Propaganda – teoria, técnica e prática. São Paulo: Pioneira. 1998
Vitória, Gisele – Entrevista com Jorge Forbes, Revista Isto é, ed. 15.07.98. São Paulo: Editora 3 1998
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5 comentários:
fiko mto feliz e alegre com td isso, é sua cara Luci intelectual Bonini kkkkkkkkkkk, é sua cara!!!!!!!!!! fiko lindo!!!!!!!!!
Q a Luz continue a iluminar sua vida cada dia + e+ e+ e+... e vai por aí além... kkkkkkkk
amo vc mto
nanda
Prontinho... relógio e contador (lá no fim da página) instalados ^^!
Se eu arrumar mais umas tranqeiras blogueiras (tranqueiras úteis, é claro) trago um "cadin" pra cá também, vlwz!
Bjoom do XDOOM
Sem noção que eu vou ler tudo isso às 22h49. Prometo que volto!
Luci, é muito bom saber que temos mais um meio para nos comunicarmos, afinal de contas jornalismo num tem mais aula com você...
Beijos com saudades,
Samira
Luciiii
aqui é a Helô
Jornalismo UMC 3º periodo
espero que lembre heueheuheueh
mas num dava pra postar um texto mais comprido não?? caramba isso é quase um ppm ou mais que isso...
Mas quando eu tiver um tempo eu venho aqui ler com calma ok
Li o começinho e já achei muito interessante ;]
Já coloquei o link do seu blog lá no meu, se vc quiser coloca o meu aqui também: http://heloisaikeda.blogspot.com
Beijos professoooora
te adoro demais!!
DE ONDE SÃO ESTES ALUNOS QUE POSTARAM COMETÁRIOS? CÉUS, QUANTOS ERROS DE GRAFIA, ACENTUAÇÃO... QUE VERGONHA!
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